Do anonimato ao Oscar: testamos o VW Fusca do filme O Agente Secreto

Do anonimato ao Oscar: testamos o VW Fusca do filme O Agente Secreto

Uma chuva fina incessante cai na pintura do carro. A maçaneta de ferro está gelada e traz uma textura impassível ao tempo: ao clima e à idade. Ao apertar o botão, a porta se abre. O estampido da porta fechando era o que faltava para te transportar para 54 anos atrás. A primeira coisa que se vê é um volante fino e redondo. Ao passar a mão, é possível sentir as ondulações na parte de trás da peça, feitas para não escapar da mão ao fazer uma curva – os carros de hoje abandonaram tal “tecnologia”.

Sim, entramos no Volkswagen Fusca 1972 utilizado na gravação do filme O Agente Secreto, dirigido por Wagner Moura, e que concorre ao Oscar junto com o elenco neste domingo (15). Sim, carros também fazem parte da história do cinema e o Jornal do Carro testou o Fusca amarelo da produção cinematográfica.

Antes de retornar à cabine, é preciso contextualizar que esse VW Fusca de 1972, utilizado nas gravações do filme que concorre em quatro categorias do Oscar — Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Seleção de Elenco — era a versão de entrada do modelo no Brasil à época. 

O motor era de 1300 cilindradas na versão mais barata, enquanto a topo vinha com motor de 1500 cm³. Como características principais desta época, o Fusca até 1972 tinha faróis com lente côncava, lanterna pequena com divisão simples entre a luz de seta e a do freio (sem luz de ré) e não havia o “boomerang” de plástico preto na coluna C. 

Além disso, o carro tem 4,02 m de comprimento, 1,54 m de largura, 1,50 m de altura e 2,40 m de distância entre-eixos. Comparando com um carro subcompacto da atualidade, o Renault Kwid tem 3,73 m de comprimento, 1,75 m de largura, 1,48 m de altura e 2,42 m de entre-eixos.

O compacto francês se assemelha ao Fusca na altura e entre-eixos. Porém, o Fusca é mais comprido (sobretudo por conta do para-choque).

O bagageiro do Fusca fica na parte da frente, já que o motor boxer é instalado na parte traseira do “bólido”. O espaço: 141 litros. Para se ter noção, esse espaço é 94 litros menor que o de um Fiat Mobi, que tem 235 litros. 

O propulsor é um motor boxer, com cilindros contrapostos horizontalmente, aspirado naturalmente, com exatos 1.285 cm³, que entrega 46 cv de potência a 4.600 rpm e 9,1 kgfm de torque a 2.600 rpm.

Mais uma vez comparando com um carro atual, o Fiat Mobi 1.0 entrega 75 cv de potência e 9,9 kgfm de torque. Nessa relação, é possível ver que o Fusca não estava tão distante do torque oferecido pelos carros atuais, tanto que era um carro ágil em baixas velocidades. Contudo, o que mais chama atenção é a diferença de 30 cv de potência, o que fazia com que sua velocidade final e aceleração de 0 a 100 km/h não fossem tão revigorantes.

O VW Fusca 1300 cumpre a prova em 30,9 segundos e a velocidade máxima é de 118 km/h. Mas não foi isso que o tornou um ícone da indústria automotiva mundial — e agora também do cinema. 


Por dentro do Fusca de O Agente Secreto

No habitáculo, à frente do motorista, apenas um mostrador redondo com a marcação da quilometragem e velocidade, que vai de 20 a 140 km/h. Ao lado, um pequeno marcador do nível de combustível.

Do lado direito, um rádio comum e dois botões: um para acender lanternas, farol baixo e farol alto, e outro para o limpador de para-brisa. À frente do banco do passageiro, um porta-luvas com tampa preta. O painel, amarelo na cor do veículo, reflete cuidado e bom tratamento.

E basta olhar para frente para ver o quão perto fica o para-brisa do motorista. Instalado na vertical, o vidro chega a causar estranheza em quem não está acostumado a dirigir um Fusca no dia a dia: parece que a rua está perto demais. .

A atmosfera se completa com o fato de motorista e passageiro estarem sentados com os ombros praticamente colados. Os bancos são tão macios quanto uma poltrona da sala de casa. O couro preto, instalado por Antoliano Azevedo (proprietário do Fusca) a pedido de Kleber Mendonça Filho para O Agente Secreto, está novo em folha. 

Além dos bancos, Antoliano também fez toda a revisão necessária no motor, câmbio, freios, suspensão, cabine e chassi para que o Fusca ficasse ao seu gosto. E isso deu frutos. O carro está super acertado, parece zero-quilômetro.


Ao dar a partida, a sinfonia começa. O som do motor 1.3 boxer, juntamente com o ruído que sai do escapamento “besourinho”, é inconfundível. Existem dois sons inconfundíveis para quem gosta de carro: um V8 e um motor boxer de Fusca (ouça no vídeo acima). Nada é tão característico na indústria automotiva mundial quanto essas duas trilhas sonoras.


E tem um truque: para ligar o Fusca, é necessário bombear algumas vezes o acelerador. Isso garante que o motor vai pegar de primeira. Ao engatar a primeira, o bom trabalho feito no trambulador da transmissão deixou o Fusca como um verdadeiro Volkswagen: engates precisos.

  Este repórter já pilotou outros Fuscas e, em alguns casos, era preciso procurar as marchas como quem usa uma colher de pau para bater um bolo num balde. O caso do Piu Piu (apelido do Fusca utilizado na produção cinematográfica) é o contrário. 

Apesar de não ter nenhum tipo de assistência (hidráulica ou elétrica), a direção é leve. Os pneus, em bom estado e calibrados, deixam a direção prazerosa e direta. Dá para sentir cada movimento do carro. O volante é fino, o que dificulta um pouco a pegada. Mas nada tão complicado que deixe de virar hábito em cinco minutos de pilotagem. 

A suspensão do carro está bastante acertada, o que permite fazer curvas sem medo mesmo em pista molhada. E o carro responde de forma exemplar aos comandos do volante e dos pedais. 


Com os freios, é preciso tomar um pouco mais de cuidado, sobretudo por serem de uma tecnologia diferente da utilizada hoje. Atualmente, todos os carros possuem freio a disco na dianteira, o que garante uma frenagem mais eficiente e também mais direta. Como os freios dianteiro e traseiro do Fusca são a tambor, a frenagem demora um pouco mais para iniciar, forçando o motorista a pisar com mais ênfase no pedal do meio. Mas também é outro fator que vira hábito depois de alguns quilômetros.

 No fim do teste, um carro extremamente equilibrado. Não à toa despertou o interesse de Wagner Moura, que perguntou a Antoliano se o carro estava à venda ao fim das gravações. E a resposta foi um emocionado e gentil: “Não está a venda”.


Fonte: https://www.estadao.com.br/jornal-do-carro/do-anonimato-ao-oscar-testamos-o-vw-fusca-do-filme-o-agente-secreto/

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